7 de julho de 2026
Maranta-cascavel

Eu fico pensando que essa história de achar um equilíbrio na vida é tipo uma pista escorregadia. Dá pra cair de boca no chão muito fácil. Isso porque, na maior parte das vezes, o sentido de equilíbrio é um ponto no meio. Entre o 0 e o 10, estar no 5. O dedo que falta – se contarmos na mão começando do 0, pois não está nem em uma mão e nem na outra. Está exatamente no meio. Em alguns atendimentos, depois de certo tempo, costumo responder “entre 8 e 80 tem infinitos números” para os pacientes que usam essa expressão famosa do “ou 8 ou 80” durante as sessões. Claro que perdi a conta de quantas vezes já ouvi isso dentro e fora do consultório, mas me chama a atenção o fato de ser usada com tanta frequência para designar que ali, entre o 8 e o 80, tem sim um ponto que é exatamente o meio e que é ali que o Equilíbrio mora. Quase como se fosse o endereço fixo de um fulano.
Eu ganhei uma planta muito linda esse ano que se chama Maranta- cascavel. Ela veio dentro de um vidro e era a coisa mais fofinha. O vidro era cilíndrico, com substrato embaixo e ela lá plantadinha. No começo, pensei que ela fosse crescer e meio que sair de dentro do vidro, sabe? Ele era longo, mas as pontinhas da Maranta já se viam livres das paredes, então imaginei que fosse questão de tempo e cuidado para que ela crescesse e saísse do vidro ficando ainda mais linda para que, aí sim, eu conseguisse ver melhor sua pintura na “parte de cima” da folha ao invés de ter uma visão quase que 100% de sua parte roxa, a debaixo. Pois ela morreu, acredita?! Morrer, morrer, não morreu. Levei ela para uma colega muito querida que faz trabalhos como paisagista, tem uma loja de plantas e que está conseguindo reviver a coitada que estava no vidro. Quando conversamos, ela me explicou que aquele “vaso” era péssimo para o movimento natural da Maranta-cascavel. Claro que eu nunca tinha visto o tal do movimento, né? a coitada não conseguia se mexer lá dentro. E foi por isso que ela começou a morrer. Sem movimento, não tem vida.
Me lembro do início de um álbum que eu adoro de uns colegas aqui da minha cidade. A banda se desfez, mas você encontra as músicas deles ainda. O álbum se chama “Carta da Terra” da banda Laranja Oliva. A primeira voz que se ouve do álbum inteirinho é um sei-lá-quem (nunca fui procurar quem é e não vai ser agora que vou fazer isso) dizendo “A paz é o equilíbrio do movimento e não a ausência do movimento. E o estado normal do universo é movimento, é transformação, como a nossa vida também.” Se esse sei-lá-quem é bom fulano, disso eu não sei, mas isso que ele diz e que, apesar de parecer muito óbvio, me custou entender, se relaciona com essa coisa da qual estamos falando, não? Esse ponto de equilíbrio, no centro, no meio, esse ponto fixo é, muitas e muitas vezes, entendido como paz. Como se bem ali fosse possível viver sempre muito bem ou mesmo lidar muito bem com as coisas (deixo aqui o convite para você ler o primeiro texto que publiquei aqui sobre terapia em dia, acho que você vai ver uma relação com isso que digo). O equilíbrio enquanto um lugar de paz parado, estático, imutável, simplesmente não existe.
A vida depende do movimento! Depende mesmo! No sentido de que sem movimento, não há vida alguma. O ser humano nasce de um jeito e morre de outro. No sentido visual mesmo. Nasce pequeno, morre mais alto do que nasceu. Nasce sem uma única ruga e morre cheio delas. Até mesmo aquilo que compõe nosso organismo se movimenta para que a gente viva. A produção de células novas, de proteínas, de energia… tudo depende de uma movimentação do organismo. Para que a gente pare de repetir uma mesma situação, precisamos nos movimentar, e aí numa análise isso acontece pela fala, para sair de uma posição sofrida que ocupamos para uma outra, inventada, menos sofrida. O equilíbrio, talvez, more justamente aí: nesse movimento natural que a vida exige. Quando digo natural, aponto justamente para essa dependência de vida–movimento. Transitar é bom. Entre o 8 e o 80 existem infinitos números (uma das poucas coisas que me lembro das aulas de matemática da escola, inclusive) e o 5 que contamos na mão, se ele for o centro, iniciando do 0 que, coitado, normalmente esquecido, também é um número, não existe, pois falta um dedo para que ele caiba ali enquanto centro da coisa. Uma planta que naturalmente abre durante o dia e se fecha lá pras 5 da tarde e que naturalmente mostra suas duas pinturas, a roxa e a verde, morre se ficar num lugar em que a deixa estática. Supor essa noção inerte do equilíbrio leva a gente para o início dessa coisa toda que estou dizendo: escorregar e cair de boca no chão. Me lembro de outra música desse mesmo álbum que citei, que diz de outro assunto que nada tem relação com esse, mas que em certo momento diz de um sistema sem fusível. Me parece também uma boa analogia para essa coisa toda: supor essa ideia de equilíbrio é perigosíssimo.