Voltar ao site Vitória Maria Belineli

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psicóloga, psicanalista, feminista, ceramista e inventista de tantas outras coisas que não cabem aqui.

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7 de julho de 2026

Maranta-cascavel

Eu fico pensando que essa história de achar um equilíbrio na vida é tipo uma pista escorregadia. Dá pra cair de boca no chão muito fácil. Isso porque, na maior parte das vezes, o sentido de equilíbrio é um ponto no meio. Entre o 0 e o 10, estar no 5. O dedo que falta – se contarmos na mão começando do 0, pois não está nem em uma mão e nem na outra. Está exatamente no meio. Em alguns atendimentos, depois de certo tempo, costumo responder “entre 8 e 80 tem infinitos números” para os pacientes que usam essa expressão famosa do “ou 8 ou 80” durante as sessões. Claro que perdi a conta de quantas vezes já ouvi isso dentro e fora do consultório, mas me chama a atenção o fato de ser usada com tanta frequência para designar que ali, entre o 8 e o 80, tem sim um ponto que é exatamente o meio e que é ali que o Equilíbrio mora. Quase como se fosse o endereço fixo de um fulano.

Eu ganhei uma planta muito linda esse ano que se chama Maranta- cascavel. Ela veio dentro de um vidro e era a coisa mais fofinha. O vidro era cilíndrico, com substrato embaixo e ela lá plantadinha. No começo, pensei que ela fosse crescer e meio que sair de dentro do vidro, sabe? Ele era longo, mas as pontinhas da Maranta já se viam livres das paredes, então imaginei que fosse questão de tempo e cuidado para que ela crescesse e saísse do vidro ficando ainda mais linda para que, aí sim, eu conseguisse ver melhor sua pintura na “parte de cima” da folha ao invés de ter uma visão quase que 100% de sua parte roxa, a debaixo. Pois ela morreu, acredita?! Morrer, morrer, não morreu. Levei ela para uma colega muito querida que faz trabalhos como paisagista, tem uma loja de plantas e que está conseguindo reviver a coitada que estava no vidro. Quando conversamos, ela me explicou que aquele “vaso” era péssimo para o movimento natural da Maranta-cascavel. Claro que eu nunca tinha visto o tal do movimento, né? a coitada não conseguia se mexer lá dentro. E foi por isso que ela começou a morrer. Sem movimento, não tem vida.

Me lembro do início de um álbum que eu adoro de uns colegas aqui da minha cidade. A banda se desfez, mas você encontra as músicas deles ainda. O álbum se chama “Carta da Terra” da banda Laranja Oliva. A primeira voz que se ouve do álbum inteirinho é um sei-lá-quem (nunca fui procurar quem é e não vai ser agora que vou fazer isso) dizendo “A paz é o equilíbrio do movimento e não a ausência do movimento. E o estado normal do universo é movimento, é transformação, como a nossa vida também.” Se esse sei-lá-quem é bom fulano, disso eu não sei, mas isso que ele diz e que, apesar de parecer muito óbvio, me custou entender, se relaciona com essa coisa da qual estamos falando, não? Esse ponto de equilíbrio, no centro, no meio, esse ponto fixo é, muitas e muitas vezes, entendido como paz. Como se bem ali fosse possível viver sempre muito bem ou mesmo lidar muito bem com as coisas (deixo aqui o convite para você ler o primeiro texto que publiquei aqui sobre terapia em dia, acho que você vai ver uma relação com isso que digo). O equilíbrio enquanto um lugar de paz parado, estático, imutável, simplesmente não existe.

A vida depende do movimento! Depende mesmo! No sentido de que sem movimento, não há vida alguma. O ser humano nasce de um jeito e morre de outro. No sentido visual mesmo. Nasce pequeno, morre mais alto do que nasceu. Nasce sem uma única ruga e morre cheio delas. Até mesmo aquilo que compõe nosso organismo se movimenta para que a gente viva. A produção de células novas, de proteínas, de energia… tudo depende de uma movimentação do organismo. Para que a gente pare de repetir uma mesma situação, precisamos nos movimentar, e aí numa análise isso acontece pela fala, para sair de uma posição sofrida que ocupamos para uma outra, inventada, menos sofrida. O equilíbrio, talvez, more justamente aí: nesse movimento natural que a vida exige. Quando digo natural, aponto justamente para essa dependência de vida–movimento. Transitar é bom. Entre o 8 e o 80 existem infinitos números (uma das poucas coisas que me lembro das aulas de matemática da escola, inclusive) e o 5 que contamos na mão, se ele for o centro, iniciando do 0 que, coitado, normalmente esquecido, também é um número, não existe, pois falta um dedo para que ele caiba ali enquanto centro da coisa. Uma planta que naturalmente abre durante o dia e se fecha lá pras 5 da tarde e que naturalmente mostra suas duas pinturas, a roxa e a verde, morre se ficar num lugar em que a deixa estática. Supor essa noção inerte do equilíbrio leva a gente para o início dessa coisa toda que estou dizendo: escorregar e cair de boca no chão. Me lembro de outra música desse mesmo álbum que citei, que diz de outro assunto que nada tem relação com esse, mas que em certo momento diz de um sistema sem fusível. Me parece também uma boa analogia para essa coisa toda: supor essa ideia de equilíbrio é perigosíssimo.

30 de junho de 2026

A morte "em dia"

Eu vou tocar num assunto que, particularmente, julgo batido. Toco nele, apesar dessa ressalva, porque por um não-sei-que-lá ainda me incomoda muito. Eu sei, eu sei, vão me dizer que é um “modo de falar” ou então só uma “expressão besta” que as pessoas usam para postar coisinhas nas redes sociais. Tá. Mas me recuso a achar isso ok: famosa coisa da terapia em dia. Sinto que perdi 3 meses de vida só de digitar isso. O que é que significa estar com a terapia em dia? mais incômoda ainda a coisa fica quando essa frase vem acompanhada de outra: estou medicada(o). Aqui se foram cerca de 6-7 meses de vida minha, tá?

E mais me incomoda ainda profissionais da psicologia fazendo isso. Posts com frases “sua terapia está em dia?” ou postando quando saem de seus próprios processos “psico também tem que estar com a terapia em dia” ou quaisquer bulhufas parecidas. Disse profissionais da psicologia não porque psicanalistas que fazem isso não existam, mas porque, daqueles que acompanho e que sigo nas redes sociais, nunca vi. Mas vamos lá, o lá que o assunto pede: o “em dia”. Em algum lugar, isso me soa engraçado. Sarcástico. Como se o destino, universo ou qualquer coisa que seja sempre desse uma risadinha contida quando alguém diz/posta isso dizendo “não, não, desculpa, eu ri, mas não foi de você não é que eu me lembrei de outra coisa aqui”. Porque tem esse tom de engraçado achar que alguma coisa da vida, em algum momento vai estar em dia. E para mim, tem no sentido mais irritante do termo (engraçado). E penso “onde já se viu alguém pensar uma coisa dessas?”, olho no espelho e me vejo. Poderia parar aqui, já. Me irrita muito porque revela em mim algo que ali eu tento esconder.

Digo que algumas coisas são meus sonhos de princesa e acho que esse é um deles: queria tanto que as coisas estivessem em dia. Que a alimentação fosse excelente e que o tempo de cozinhar tudo sempre existisse. Que o sono fosse no ponto, nem a mais e nem a menos para a saúde e para a necessidade do corpo que habito. Que a academia fosse sempre uma delícia e que eu quisesse ir todos os santos dias que o senhor nos deu. Que as minhas relações todas fossem saudáveis, sem atritos, sem divergências. Que todas as contas fossem pagas com uma imensa sobra de grana para qualquer coiserinha que eu quisesse comprar. Que a vida estivesse em dia. Apesar de dizer que esse é um sonho de princesa, em algum lugar, mesmo que pequeno eu digo “ufa! que bom que não é assim!”. Se fosse assim a vida seria uma merda! Aliás, ela nem existiria de fato. Porque só o que é em dia é a morte. A gente precisa de um “vir-a-ser-possivelmente-talvez” para seguir vivendo, existindo.

Enfim que segui num outro ponto, mas volto para a terapia em dia. Me parece louco que justamente o espaço – aqui penso a partir do que me baseio, na psicanálise – que se propõe a ser aquele em que o sujeito pode existir de outro jeito, em que ele pode faltar, em que ele pode levar o tempo que for para falar, em que ele pode se demorar em algo minúsculo ou mané, em que ele pode silenciar, em que ele pode esvaziar, seja o lugar em que ele também precise estar “em dia”. Em dia com o que, pergunto? Com o que se está “em dia” na terapia? Na análise, talvez com a fantasia, ou com a ilusão. Não que a fantasia não seja importante, mas, em certo momento, ela é atravessada – veja, atravessada, não descartada. Seguir “em dia” com aquela ideia de que consegue se controlar, “em dia” com aquela meta tirada do fundo da alma, para não dizer de outro lugar, de ler 50 livros no ano quando não lia nem 5 no ano passado, “em dia” com a sensação de que dá conta de si e dos outros. Nossa, mas que canseira! E mais! Que sofrido. Dizer que está “em dia”, por acaso evitaria um momento de descontrole, de tristeza, de frustração? Ou ainda, por acaso evitaria não saber como agir quando se topa com esse monte de coisa? Me lembrei mais ou menos de um versículo que depois de pesquisar encontrei em Lucas 2:10 “[...] não temais, eis que vos trago boas novas que o será de grande alegria para todo o povo[...]” – curioso que me lembro de uma passagem bíblica, né? me dá essa sensação de “salvação” que a frase me passa, ou seja, se está em dia, está a salvo. Mas advirto que a coisa não vem pelo lado de onde se espera estar a boca. Vem de outro. De onde não se espera nada de bom. Mas vem!

Então retorno. Estar com a tal “terapia em dia” evitaria algo? Não temais, eis que vos trago boas novas que o será de grande alegria para todo o povo: Evita nada. Ufa. Dá pra existir ainda!

23 de junho de 2026

Um viva aos psicanalistas

Tenho pensado sobre não saber. Tenho pensado que não sei e que não sei de muita coisa. Não é como se eu já não soubesse que não sei de muita coisa, mas é que tem uma diferença entre saber que não se sabe e pensar sobre o não saber que, de fato, não se sabe. E eu tenho pensado sobre o não saber e sobre o fato de que eu, em primeira pessoa, digo, não sei. Talvez seja a partir daqui, desse lugar que agora pensando nele, me parece meio como que um círculo desenhado de giz no chão em que eu fico dentro com medo de sair porque parece que fora do giz não posso ficar, como se fosse uma brincadeira de educação física de escola infantil – acho que deve ter um nome essa brincadeira ou algo que parece com isso, sei lá – talvez a partir desse lugar de círculo de giz é que eu inicio esse espaço. Acho que escrevi mal. Talvez dentro do círculo, na verdade, é o lugar em que eu sei. Me dá um medo de altura só de imaginar o quão longe do chão esse círculo pequeno está e o quão difícil é ficar ali encolhida torcendo pra não cair e me esborrachar no chão! É isso. Acho que disso eu sei: o círculo é esse lugar, não o outro, o primeiro que disse, pois vi que estava errada. Que difícil isso. Mas, apesar de ser difícil, o isso, eu me lembro de que é giz desenhado no chão e que eu posso levantar sem medo de cair, pisar para fora sem medo de morrer, circular lá e cá mesmo sem saber. Não disse que é fácil! Se você aí pensou que escrevi tudo isso para no final dizer que é fácil, você, assim como eu, não sabe tanto assim como talvez imagine que sabe. Não é fácil. Mas não precisa ser tão difícil. Inclusive, um viva para Cláudia! que me convoca de outro lugar para que eu me veja no chão, dentro de um desenho e para que, como quem descobre algo novo, mas que na verdade já sabia, dizer “eureka!!”, me levantar e caminhar. Um viva para quem sustenta esse lugar dificílimo de não saber diante de tanta gente diferente e escuta. Um viva para as psicanalistas!